domingo, março 04, 2007

Escaladas ao topo do mundo pela voz de João Garcia

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Numa iniciativa do Pelouro da Juventude, o Salão Nobre da Universidade Lusíada de Vila Nova de Famalicão, recebeu na passada terça-feira, dia 27 de Fevereiro, o alpinista português João Garcia, que se tornou conhecido por ser o primeiro português a subir ao Monte Everest, o cume mais alto do planeta, sem recurso a oxigénio artificial e sem carregadores de altitude.

Com uma plateia maioritariamente jovem, João Garcia contou algumas das suas aventuras e da sua paixão por escalar montanhas, exibiu um documentário sobre a expedição à montanha de Kanhchenjunga, ocorrida no ano passado (António Coelho, mais conhecido por Tozé, também presente na palestra, acompanhou João Garcia nesta expedição mas não chegou ao cume da montanha, tendo, por razões de saúde, sido evacuado de helicóptero), apresentou o seu segundo livro “Mais Além - Depois do Evereste", (em 2001, havia lançado "A mais alta solidão"), concedeu dezenas e dezenas de autógrafos e deixou-se fotografar ao lado de todos aqueles que o desejaram.

ALGUNS EXTRACTOS DA PALESTRA

“Não posso descrever algo como paz interior ou grande paz de espirito. É sobretudo, muito cansativo, muito perigoso e muito dificil escalar aquelas montanhas. Esta é que é a triste conclusão. Não há nada de filosófico naquilo que faço. É um mero objectivo de ir mais além e que me faz sentir realizado”. (questionado sobre a sensação de atingir o cume da montanha)

“Escalar montanhas é uma coisa muito pessoal. Quando me perguntam porque o faço, eu respondo porque sim, porque a montanha está ali. A dada altura, as nossas vidas apenas começam a fazer sentido por escalarmos montanhas”.

"Acho que há dois propósitos básicos para este previlégio de termos vida: o primeiro é para nos reproduzirmos para dar continuidade à espécie humana; o segundo é sermos felizes, e eu sou feliz a escalar montanhas. É isso que me realiza, apesar de aos olhos de muitos isso não ser sensato".

"Escalar montanhas é a empresa da minha vida. Quando o digo não estou muito longe da verdade, porque montar uma equipa, motivar as pessoas, treinar e organizar a expedição é como montar uma empresa. A diferença é que esta não dá lucro, mas dá-me um gozo tremendo”.

"Existe um risco elevado, mas muitas vezes esse perigo, na nossa forma de ver, não é igual ao risco das pessoas não praticantes”.

"Saímos do último acampamento (nos 7500 metros) para ir ao cume (nos 8500 metros) e essas 20 horas de expedição são as mais delicadas. Acima dos 7500 metros estamos sempre em risco de vida. O ar é extremamente seco e rarefeito, o que obriga o organismo a respirar seis vezes mais e a perder seis vezes mais líquidos que o normal. Com o organismo desidratado o nosso sangue torna-se mais espesso e a circulação nas extremidades mais deficiente. Em casos extremos essa circulação pára e as células morrem”.

"Emagrecemos em média um quilo por semana. Essa é uma das razões pelas quais não tem sentido que uma expedição dure mais de um mês".

"Sempre que a equipa desce ao campo base (localizado a um altitude de 5 mil metros) não é para descansar. Tem o único objectivo de diminuir a taxa de degradação corporal, mas mesma aí estamos sempre a perder”.

"Ui, tantas vezes, mas isso é típico do ser humano. O problema é que quando estamos cá em baixo só pensamos em chegar lá cima” (questionado sobre se alguma vez pensou em desistir).

"Determinação e força de vontade. É algo invisível, mas sem isso nada é possível. Para que uma expedição seja bem sucedida tenho de me sentir decidido desde que saio de casa". (questionado sobre qual o utensílio que coloca em primeiro lugar na sua bagagem).

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